sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O Peso do Destino - Cap 1

Chamavam-na de Eva, provavelmente o nome que lhe tinham dado á nascença, e contudo não tinha qualquer recordação da sua família, não se lembrava dos seus pais ou de quaisquer outros parentes que poderia ter. O que sabia, era que havia sido abandonada num orfanato com alguns meses de idade, deixada ao deus dará, ao desconhecido e que lhe havia sido privada a alegria de ter uma família. 





Normalmente, a maior parte das crianças que estavam num orfanato, eram adoptadas ainda em pequenas, era a preferência da maioria das famílias, para puderem criar os seus filhos desde tenra idade.



A realidade, era que quanto mais tempo passasse e quanto mais velhos fossem, as hipóteses de serem adoptados diminuíam drasticamente, e teriam de se habituar á ideia de ficar naquele sitio até atingirem a idade adulta e depois sair para o mundo, para se virarem sozinhos dai em diante.


Aos sete anos de idade, senti pela primeira vez alguma felicidade, com a possibilidade de existir alguém que quisesse, de facto, que eu fizesse parte da sua família. Com a possibilidade de ter um lugar que poderia realmente chamar de casa. Fui adoptada por uma senhora de meia-idade, que por alguma razão decidiu dar-me um lar. 

Simone era uma mulher muito educada, dava para perceber que tinha recebido uma educação muito exigente, vivia bem, tinha uma bela casa, era dona de uma das livrarias mais conhecidas da cidade. Era muito amável, e eu conseguia sentir o carinho que ela naturalmente nutria por mim, desde o momento que a vi pela primeira vez, consegui entender que existia ali uma ligação, era algo forte, como que familiar.

O resto da minha infância foi relativamente normal, dentro do possível. Mas foi em plena adolescência, que notei que algo em mim começava mudar, algo que nunca se tinha manifestado até á data. Antes disso, sentia-me como uma rapariga perfeitamente igual a todas as outras, mas quando completei quinze anos a mudança tornou-se mais acentuada e rápida. Notava que me tinha tornado mais forte que o normal, mais rápida, e os meus sentidos ficaram mais apurados, no entanto tive receio de contar isto a quem quer que fosse. 

Não queria, depois de tudo o que havia passado na vida, ser vista como anormal, porque queria ser igual a todas as outras pessoas normais. Sabia que era mais forte que uma rapariga normal, mais até que um rapaz bem musculado, sabia que conseguia correr tão rápido ou mais que um atleta profissional e os meus sentidos e reflexos eram dignos do mais nato dos felinos. Isso não era normal.

Comecei mesmo, a dada altura, a questionar a minha sanidade mental e queria poder contar a alguém o que estava a acontecer. A minha melhor amiga, Miranna, sabia que algo se passava e tentou inúmeras vezes que me abrisse com ela, e graças a Deus, quando ganhei coragem para lhe contar, ela recebeu-me de braços abertos, sem julgamentos ou receio.

- Isto é muito fixe, tens noção disso? – Disse Miranna completamente maravilhada.

- Para quem? Para mim ou para ti? – Perguntei.

- Para nós! – Afirmou – Tenho uma amiga com super-poderes, que mais poderia eu pedir?

- Está bem, mas pára de olhar para mim como se eu fosse uma anormal, tens de dar menos nas vistas, por favor, não quero que descubram.

- Pronto desculpa, perdoa-me por estar entusiasmada por nós as duas, já que tu não estás. Podes confiar eu mim Eva, sempre.

- Eu sei, e não sabes o quanto te agradeço por isso. – Disse sinceramente.

Senti-me, de facto, mais leve por finalmente ter deitado cá para fora tudo o que me atormentava há meses. Eu e a Miranna éramos amigas desde pequenas, ela foi a primeira amiga que fiz após entrar para a escola, após ser adoptada, e a nossa amizade cresceu e tornou-se forte, e ela não era apenas a minha melhor amiga, era como uma irmã para mim.

Pensei em contar á minha mãe, mas achei que ela não teria uma mente assim tão aberta. A minha mãe não tinha religião definida, ela não acreditava somente em Deus. Ela tinha na sua biblioteca inúmeros livros sobre mitologia grega, romana e celta, as suas preferidas, mas também era possível encontrar livros de mitologia egípcia e nórdica. Ela formara-se em neopaganismo na universidade. 

Era sim uma pessoa com uma mente muito aberta e acreditava em coisas fora do comum, no entanto não tive coragem para perguntar sobre o que se passava comigo. Por dentro sabia que havia algo mais sobre a minha adopção, não sabia dizer porquê, mas estava certa disso.

Desde pequena que ela me contava histórias e eu ficava fascinada, a minha preferida era a história de Afrodite a deusa da beleza e do amor, filha de Zeus, que pelo receio de uma guerra pela sua mão, foi obrigada a casar com Hefesto, o deus do fogo, que não constituía uma grande ameaça, contudo ela teve Ares, deus da guerra, como amante.

Mais tarde Afrodite grávida de Ares e com receio de ser descoberta, enviou a recém-nascida para a Terra, condenada pelo pecado dos progenitores a viver uma vida junto dos humanos. Entretanto Hefesto descobriu a traição e com a permissão de Zeus, pediu a Artémis que lhe cedesse o próprio líder do seu exército para procurar a criança e decidir o seu destino. Esse exército era chamado de Predadores da Noite, homens imortais que livravam e protegiam a humanidade do mal. Era uma história fascinante e muitas vezes dava comigo a imaginar como terminaria.

Ainda assim, por muito que adorasse a minha mãe, não queria que ela achasse que tinha adoptado uma anormal, uma aberração. Aos vinte anos de idade, já estava praticamente habituada a viver com o meu segredo, e pelo menos podia sempre falar sobre isso com a Miranna.

Uma tarde estava nas aulas, ligaram para a universidade e comunicaram-me que a minha mãe estava no hospital. Nesse dia o mundo caiu aos meus pés. Fui para o hospital o mais rápido que pude e ainda tive uns momentos com ela.

- Desculpa mãe, por não ter estado lá…- Disse destroçada, agarrando a sua mão.

- Não tens de te desculpar minha querida. A minha hora chegou e quanto a isso, ninguém pode  fazer nada. – Concluiu a mãe com pesar.

- Não digas isso, vais ficar bem mãe, ainda vais estar comigo durante muito tempo, não te livras assim de mim! - Disse sorrindo-lhe. 

- Adoro-te querida.

- E eu a ti, para sempre.

Ela sorriu carinhosamente e ficou com uma expressão de tristeza logo de seguida e começou a dizer:

- Lamento imenso por nunca te ter apoiado, por não poder dizer que sabia o que estava a acontecer contigo, por não poder revelar o meu propósito e ajudar-te, mas apesar disso serás sempre a minha amada filha… - Revelou.

- O que queres dizer com isso…o que estás a dizer? - Perguntei num misto de confusão e surpresa.

- Eva…o que quero dizer é que sempre soube de ti, que tu eras diferente, especial…esse era o meu propósito, proteger-te, manter-te em segurança e não me podia pronunciar sobre isso…

Estava em choque, completamente. Durante todos estes anos ela soubera o que se passava comigo e tinha feito de conta que não sabia de nada. Teria ela gosto em me ver sofrer, viver num mundo de incertezas e inseguranças?

- Não posso acreditar no que me estás a dizer mãe…tu sabias e não me apoias-te…como pudeste deixar que eu vivesse assim? - Perguntei completamente revoltada.

- Sinto muito querida, eu não podia dizer nada, literalmente, não podia ir contra o voto que fiz, fui alvo de um feitiço que me proibia de falar sobre esse assunto, simplesmente só de pensar nisso, os meus pensamentos eram silenciados assim como as minhas palavras, se tentasse falar…

- Meu deus…nem sei o que te dizer, e agora como é que consegues falar sobre isso?

- Posso porque já cumpri o meu dever, já não vou estar a teu lado, não vais precisar de mim…

- Vou precisar de ti sempre mãe, sempre!

Abracei-a com todas as minhas forças, e naquele momento senti que ela me deixava. Olhei para ela, parecia tão frágil, mal conseguia manter os olhos abertos.

- Irei amar-te sempre minha Eva…

E assim, ela partiu, e eu encontrava-me mais uma vez sozinha, mas desta vez com muitas perguntas e poucas respostas.

4 comentários:

  1. Muito bom começo :) Outra coisa não era de se esperar... de uma escritora tão competente como tu hehehe.
    Parabéns!!!
    Lá vamos nós ter mais uma excelente história cheia de suspense e ansiedade pelo próximo capitulo :)
    Beijinhos

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    1. KKKK Obrigada Sandra, fico grata pelo teu apoio. Beijinhos =)

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  2. Excelente começo.
    Vou continuar a leitura.
    Até mais.

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  3. estou a gostar , agora e esperar por mais nao demores xau

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